terça-feira, 10 de março de 2009

As Planícies Sem Fim

Essa é a tradução da palavra masai “Serengeti”. E são mesmo. Até onde a sua vista alcança, mas você sabe quem ainda há muito mais adiante.
Depois da parada na aldeia Masai, dirigimos por mais 4 horas até um ponto de encontro de turistas na entrada do Parque Nacional do Serengeti. É lá que você se registra, avisa ao mundo que está entrando no parque e se algo te acontecer, como ser devorado por um leão, ao menos alguem vai saber por onde começar a procurar! ☺

Depois de um almoço precário - você sempre sabe que não vem coisa boa quando seu almoço sai de uma caixinha de papelão – resolvi tirar uma soneca no banco de trás do jipe. “Se não for uma árvore com um leopardo ou uma caçada, não me acorde” eu avisei.
E acordei com o Fernando me cutucando. “Pega a máquina, rápido”.

Na nossa frente, mais de um milhão de Gnus (Wildbeast) e zebras cruzavam o nosso caminho. É a grande migração, um dos maiores espetáculos da natureza, algo que só vendo para acreditar. Esses animais migram anualmente da Tanzânia até o Quênia e depois começam o percurso de volta, seguindo as chuvas e a fartura da vegetação. Junto com eles, camuflados pela savana, os predadores.

Eu não conseguia acreditar. Havia zilhões deles. As vezes um grupo disparava, assustando outros e logo milhares corriam em disparada a nossa volta. Nosso guia despreocupado avisou: se eles quiserem derrubam o carro facilmente. Ótimo, era só o que faltava, morrer pisoteada por gnus assustados. Se for para morrer em safári, que seja com glamour, devorada por leões, atacada por leopardos ou em um confronto com guepardos selvagens, mas não por um bando de zebras e gnus.

A chuva não deu trégua até chegarmos no hotel. Eu estava tão pilhada com tudo que não consegui descansar ou sequer abrir a mala. Troquei de roupa correndo e fui até a piscina. Aos meus pés, as planícies do Serengeti.
No deck da piscina fiz amizade com um casal de ingleses de North Wales. E como não queria ser mal educada, os acompanhei nas muitas cervejas que eles pediram. Trocamos figurinhas sobre o que havíamos visto, os lugares que havíamos estado e os que ainda iríamos. As cervejas chegavam cada vez mais quentes, não existe refrigeração suficiente para aplacar o calor africano.

Ninguém sabe se foi a cerveja quente, a comida, o calor ou a combinação de tudo, mas por volta da meia noite comecei a sentir uma dor de estômago muito forte e daí em diante foi um show de horror.

Eu sabia que não era malária, eu não estava na Africa o tempo suficiente para ter os sintomas. 
Intoxicação alimentar, diagnosticou o médico que me visitou de manhã, um nativo gordinho (coisa rara na Tanzânia), inglês macarrônico e atrapalhado como só. Eu não entendia como. Sonhei a minha vida toda com essa viagem e me preparei para isso. Segui as regras mais importantes: Nunca colocar a mão na boca, não tomar nada que tenha gelo no copo e nem com uma faca no pescoço beber água da torneira. Até os dentes escovávamos com água mineral e mesmo assim, eu adoeci. 

No rótulo dos remédios que o doca (de doctor) me receitou: Made in Tanzania. Que beleza! Não bastasse os vômitos e a diarréia eu agora tinha que tomar comprimidos de sabe Deus que laboratório. E cadê a coragem?

A cidade mais próxima da região de Seronera, onde estávamos, fica há 6 horas de carro. Era isso ou um trecho rápido de avião, para um atendimento hospitalar, mas eu não queria ir. Não viajei meio mundo para chegar até aqui e voltar sem ver os animais, sem fazer um safári sequer. Respirei fundo e engoli os comprimidos. No segundo dia de cama eu avisei: amanhã eu vou para o safári e seja o que Deus quiser. “Vou ver se na recepção eles tem fraldas para adultos!” respondeu o Fernando, rindo da minha desgraça.


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